Noam Chomsky was interviewed by the brasilian magazine IstoÉ because the translated edition of his book The Assault on Democracy was just published in Brasil. It is funny to see the journalist clearly attacking his views and him giving her great answers, some of them very sharp, they way I like. The interview was published in pt_BR and I won’t destroy it by translating it back into en_US. So without further ado:
Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?
Chomsky: Se você comparar as eleições de 2008
com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a exemplo da
Bolívia, o processo é radicalmente diferente.
Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população.
Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas
próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos
recursos naturais, direitos culturais.A população não se envolveu
apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é
uma democracia.
Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário
sobre nossas eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu
a Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.
Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.
Chomsky: Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.
Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?
Chomsky: Distribuição de recursos tem a ver com
política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a
política econômica é definida por instituições financeiras e pessoas
que levaram o país e boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo,
é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você
pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é
correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para
políticas que desagradam aos ricos.
O presidente Hugo
Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição
ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?
Chomsky: Você acha que os Estados Unidos foram
um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra? O
presidente Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu,
pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja
incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados
Unidos nunca foram uma democracia. Isso vale também para outras
democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser
reeleito de forma indefinida.
O sr. acha que o presidente Lula representou alguma mudança para o Brasil?
Chomsky: De forma geral, suas políticas têm
sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a
disciplina das instituições financeiras internacionais foi
questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter
escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia.
Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações
como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Mas, em geral, o
País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com
os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital,
entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de
integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas
(Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um
pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a
América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do
mundo atualmente.
E qual o papel do Brasil?
Chomsky: O Brasil tem um papel central na
integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O
presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países
que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela,
estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as
relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações
agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver
tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações,
como a da soja.
Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?
Chomsky: Sim. Mas não se deve esperar que os
países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido
ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os
Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na
reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com
Israel – foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos
EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel,
apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições,
que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não
gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da
aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?
Chomsky: Antes de falar sobre isso, temos que
eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país
mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia
avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em
computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi
financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque
eles não acreditam nisso.
O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky: O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.